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sábado, 27 de novembro de 2010

Terra, o planeta consumido.




Provocamos várias calamidades ao longo da nossa existência, mas sempre houve fenômenos limitados. Os mamutes foram extintos há 11 mil anos também por causa do homem. E esse é só um dos danos ao ecossistema. Com o caos climático produzido pelo uso dos combustíveis fósseis, tudo muda: a ameaça se torna global.

A reportagem é de Antonio Cianciullo, publicada no jornal La Repubblica, 09-11-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O mamute, o tigre dente de sabre, o uro [touro selvagem], o leão das cavernas: todos desaparecidos há 11 milênios em coincidência com a afirmação, em um mundo que estava mudando de clima, de um formidável predador, o homem. É esse o núcleo ao redor de uma das mostras em cena, entre os dias 12 a 28 de novembro, na Città della Scienza de Nápoles.

Mas podemos realmente atribuir à espécie humana responsabilidades tão antigas na distorção dos ecossistemas? Ou a capacidade de competir com a natureza no desenho dos limites dos habitats e do equilíbrio do planeta deve se limitar ao período pós-revolução industrial, concretizando-se plenamente no século XX?

“É preciso distinguir entre os desastre que se limitaram no tempo e no espaço e um desequilíbrio profundo que ameaça o conjunto dos ecossistemas”, responde Mario Tozzi, divulgador científico, apresentador de TV e autor de vários livros, dentre os quais um sobre as catástrofes.

“Os seres humanos provocaram várias calamidades ao longo da sua existência: mas sempre foram fenômenos limitados. Talvez causaram a extinção de alguns grupos ou de algumas espécies, mas jamais comportaram um risco em nível planetário. Com o caos climático produzido pelo uso dos combustíveis fósseis, tudo muda: a ameaça se torna global”.

Em nível local, o pesadelo já se realizou. Em “Collasso” [Colapso], o biólogo Jared Diamond descreve, por exemplo, a catástrofe que atingiu a Ilha de Páscoa, submetida a um desequilíbrio crescente por causa do progressivo corte de florestas. O desmatamento foi causada pela construção de um enorme número de estátuas aos deuses, construídas inexplicavelmente de modo sempre mais grandiosos e imponente, mesmo que os recursos à disposição continuavam diminuindo. E Diamond se pergunta o que pensou o homem que estava cortando a última árvore de palma, tornando assim irreversível a degradação que, ao longo de poucos anos, levaria à extinção de todas as espécies arbóreas, à impossibilidade de construir canoas para a fuga e à morte de todos os habitantes: “Talvez gritava, como os modernos lenhadores: não árvores, mas postos de trabalho? Ou: a tecnologia resolverá todos os nossos problemas”.

As capacidades de adaptação do planeta permitiram durante muito tempo que se absorvesse o impacto desses episódios de desequilíbrio local, mas, defende o historiador John McNeill, ao longo do século XX, assistiu-se a um “golpe de Estado” biológico da espécie humana: a população se multiplicou por quatro, o consumo de energia por 16 e o de água por nove, obrigando 700 milhões de pessoas à sede e outras 24 milhões a se transformarem em refugiados climáticos.

A pressão nos ecossistemas assumiu, assim, uma dimensão planetária, e muitos biólogos consideram que essas foram as premissas para a sexta extinção de massa da história do planeta, a primeira criada por uma única espécie: o “homo sapiens”. Nas projeções do quarto relatório do IPCC, a força tarefa de cientistas da ONU que venceu o Nobel para a Paz e para as Pesquisas sobre o Clima, também se prevê o desaparecimento de uma em cada quatro espécies no caso de um aumento de temperatura de dois graus (e se poderia chegar a seis até o final do século).

“Por milhões de anos, a Terra conseguiu se autorregular, reduzindo ou eliminando as presenças que perturbavam o seu equilíbrio”, conclui Tozzi. “Agora, nós vencemos um tempo da partida, impondo uma situação desequilibrada, mas, se não corrigirmos a rota, corremos o risco de perder a partida”

sábado, 19 de junho de 2010

Ocupações Desordenadas



O Brasil passou por dois fenômenos que merecem destaque quando se fala de ambientes urbanos: a rápida industrialização, experimentada a partir do pós-guerra, e a urbanização acelerada que se seguiu. No curso desse processo, reflexo das políticas desenvolvimentistas então vigentes, uma série de regras de proteção ao meio ambiente e ao cidadão foram desrespeitadas ou mesmo desconsideradas.
Sem o sucesso e a estabilidade econômica de países como os Estados Unidos, Japão ou Alemanha, somente nos anos 70 o Brasil começou a voltar-se para as questões ambientais, de saneamento e de controle da poluição, logrando seu primeiro intento com o Plano Nacional de Saneamento (Planasa), ao conseguir abastecer com água tratada cerca de 80% da população urbana brasileira. A partir de então, os grandes problemas ambientais do país vêm sendo identificados e dificilmente controlados.
Desde os anos 50, a formação das cidades brasileiras vem construindo um cenário de contrastes, típico das grandes cidades do Terceiro Mundo. A maneira como se deu a criação da maioria dos municípios acabou atropelando os modelos de organização do território e gestão urbana tradicionalmente utilizados, e mostrou-se inadequada. O resultado tem sido o surgimento de cidades sem infra-estrutura e disponibilidade de serviços urbanos capazes de comportar o crescimento provocado pelo contingente populacional que migrou para as cidades.
Entre as décadas de 50 e 90, a parcela da população brasileira que vivia em cidades cresceu de 36% para 75%, sendo que em 1991, nove regiões metropolitanas possuíam mais de 1 milhão de habitantes cada. Não obstante os evidentes desequilíbrios ambientais decorrentes desse processo, os espaços urbanos não receberam, na mesma proporção, a devida atenção por parte da mídia e dos governantes.
Quando se trata do urbano, a complexidade do que se denomina problemas ambientais exige tratamento especial e transdisciplinar. As cidades não são apenas espaços onde se evidenciam problemas sociais. O próprio ambiente construído desempenha papel preponderante na constituição do problema, que transcende ao meio físico e envolve questões culturais, econômicas e históricas.
Os grandes assentamentos urbanos concentram também os maiores problemas ambientais, tais como poluição do ar, sonora e hídrica; destruição dos recursos naturais; desintegração social; desemprego; perda de identidade cultural e de produtividade econômica. Muitas vezes, as formas de ocupação do solo, o provimento de áreas verdes e de lazer, o gerenciamento de áreas de risco, o tratamento dos esgotos e a destinação final do lixo coletado deixam de ser tratados com a prioridade que merecem.
Nas metrópoles com grande concentração industrial exacerbam-se os problemas de degradação ambiental, trânsito, enchentes, favelização e assentamentos em áreas inundáveis, de risco e carentes em saneamento.
Como centros de produção, essas cidades mostram saturação de indústrias em áreas restritas, trazendo diversos problemas a seus habitantes, provocados pelos elevados índices de poluição que apresentam.
Nas cidades costeiras com vocação para o turismo, as condições de balneabilidade das praias vêm sendo comprometidas cada vez mais pelas descargas de esgotos "in natura" e pelas precárias condições de limpeza pública e coleta de lixo. É nelas que os interesses especulativos imobiliários forçam a ocupação de áreas de preservação ambiental, desfigurando a paisagem e destruindo ecossistemas naturais.
Cidades históricas e religiosas como Ouro Preto (Minas Gerais), Olinda (Pernambuco) e Aparecida do Norte (São Paulo) também sofrem com a especulação imobiliária, com a favelização e com o turismo indiferente à preservação do patrimônio cultural e ambiental. Na Amazônia, as atividades extrativistas e o avanço da fronteira agrícola produziram cidades de crescimento explosivo, que se tornaram paradigmas para a degradação da qualidade de vida no meio urbano.
De modo geral, as favelas estão vencendo a cidade formal. Em quase uma década, de 1991 a 2000, a população de 29 favelas estudadas no Rio de Janeiro aumentou 123,5%. Enquanto isso, no asfalto, o total de habitantes cresceu bem menos: 69,8% no mesmo período.
Especialistas e líderes comunitários apontam a falta de controle das prefeituras (fiscalização e omissão do poder público), como principais motivos da expansão das favelas, em especial sobre a ocupação da faixa marginal de proteção de rios e lagoas, e o fracasso de programas habitacionais para a população de baixa renda.
O desgoverno é tão gritante que em 2004, a Promotoria de Meio Ambiente do Ministério Público entrou na Justiça pedindo a demolição de 114 casas construídas no meio de ruas. Uma das residências já tinha quatro andares. Boa parte dos moradores vem fugindo da violência do tráfico de outras áreas, sem contar os casos de invasões organizadas por políticos. Não existe política habitacional para conter as ocupações desordenadas.
Nem só de tijolos aparentes ou de madeira são feitas casas em situação irregular nas áreas urbanas brasileiras. Tampouco essas moradias são encontradas apenas em favelas. Muitas áreas são invadidas e ocupadas por clubes, restaurantes, grandes casas e outros estabelecimentos.
Por impedimentos da legislação, imóveis de classe média e alta são construídos sem licença em encostas, ilhas e faixas marginais de proteção de cursos d'água. Diferentemente do que acontece com moradores de favelas, os donos ou cessionários de terrenos travam batalhas judiciais ou tentam negociar soluções administrativas para seus imóveis com as prefeituras.
Principal causa de assoreamento dos rios e, conseqüentemente, das inundações, a ocupação irregular das margens atingiu níveis alarmantes no município do Rio de Janeiro, por exemplo. A ocupação desordenada das margens provoca o assoreamento dos rios. Sem a vegetação, a erosão acaba levando grande quantidade de sedimentos para os corpos hídricos, além do lixo e do esgoto jogados por moradores. A presença de casas nas margens também dificulta o trabalho de dragagem. A Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (Serla) calcula que existam hoje na cidade cerca de 25 mil construções irregulares dentro da faixa marginal de proteção de 30 m ao longo de rios, canais e lagoas. Em todo o estado são cerca de 60 mil imóveis nesta situação. Os aterros ilegais também proliferam, inclusive em regiões naturalmente sujeitas a enchentes, onde até porcos são criados em chiqueiros sobre canais.

http://www.vivaterra.org.br

domingo, 11 de abril de 2010

Alerta dos rios

Uma nova pesquisa alerta: o nível de água dos grandes rios no Planeta está abaixando.


Washington Novaes, jornalista, é supervisor geral do Repórter Eco.

Segundo a pesquisa, no caso do São Francisco, as razões principais da perda estão no menor volume de água em chuvas e no calor mais intenso, que aumenta o nível de evaporação. Agora mesmo está prevista uma redução das próximas chuvas em vários Estados do Semi-Árido. E outros estudos têm mostrado que outra razão forte das perdas no rio está na diminuição da água despejada pelos afluentes da região do Cerrado.

Estimativas do Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, dizem que o desmatamento no Cerrado já reduziu para metade o volume de água estocado no subsolo do Cerrado, onde nascem 14 por cento das águas de bacias brasileiras. A do São Francisco é uma delas, pois está no Cerrado grande parte de seus 168 afluentes.

Mas não é só no São Francisco. A bacia amazônica - diz o estudo norte-americano - também perdeu no período 3,1 por cento de suas águas. Já a bacia do Paraná teve aumento de 60 por cento. Mas outros estudos brasileiros apontam que nos anos mais recentes começou a haver queda na bacia do Paraná, provavelmente por causa da redução dos gelos nos Andes, de onde vem parte de suas águas.

Seja como for, o Brasil precisa ter políticas adequadas para que esse processo de perda de águas não vá adiante. E o caminho principal está na eliminação do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Washington Novaes, jornalista, é supervisor geral do Repórter Eco. Foi consultor do primeiro relatório nacional sobre biodiversidade. Participou das discussões para a Agenda 21 brasileira. Dirigiu vários documentários, entre eles a série famosa "Xingu" e, mais recentemente, "Primeiro Mundo é Aqui", que destaca a importância dos corredores ecológicos no Brasil.

Fonte: Repórter Eco TV Cultura

sábado, 20 de março de 2010

“Josué, nunca vi tamanha desgraça”



Enviado por Paulo Gonçalves

Na noite do último Natal, no centro do Recife, centenas de pessoas com andrajos faziam filas quilométricas para receber “cestas básicas” distribuídas pelos governos federal e estadual, igrejas, centros comunitários, clubes de mães...
A cena repetia, de modo concentrado, o que acontece diariamente pelas ruas centrais e adjacentes desta cidade “tomada ao mar”. A secular miséria aumenta ano após ano, decorrente da mesma prática política que Josué Apolônio de Castro denunciava há mais de 40 anos.

Médico, geógrafo, professor catedrático e autor do livro Geografia da fome, obra traduzida em 25 idiomas, o pernambucano nascido no Recife, Josué de Castro foi um dos mais importantes brasileiros do século XX, cuja vida foi dedicada a desvendar e denunciar as condições em que subsistem milhões de seres humanos, condenados a morrer de fome, vítimas da exploração de um sistema moribundo e de suas relações sociais.
Utilizando-se de instrumentais teóricos marxistas, a obra de Josué de Castro se notabilizou pelo estudo e pela denúncia das condições que produzem o flagelo da fome. Ela analisa o imperialismo e o seu desenvolvimento nos países semicolonizados ao criticar as classes dominantes e enfocar o papel da economia e a necessidade de erradicar o latifúndio e o semifeudalismo, fonte primeira das condições de vida subumanas encontradas a cada esquina do nosso país e demais nações sob o jugo colonial.
A sua denúncia do “flagelo fabricado pelos homens contra outros homens”, como diz em Geografia da fome, sintetiza o seu vigoroso trabalho, referência mundial obrigatória quando o tema é fome como consequência da ação política.

Segundo sua filha, Anna Maria de Castro, “a publicação da primeira edição da Geografia da fome, em 1946, marca o início das denúncias que pretendeu levar , aos brasileiros e ao mundo, sobre esse grave flagelo”. Anna diz que “a vida de Josué de Castro foi uma grande lição de engajamento em sua própria realidade, sua própria cultura. Ele procurou desenvolver uma ciência a partir de um fenômeno que é a manifestação do baixo padrão de vida em sua mais dura expressão: a fome, e tentou criar uma teoria explicativa para a triste realidade da negligência, da pobreza, da miséria, buscando modificar a história de seu país. É este homem que o Brasil de hoje precisa deixar de ignorar.”

Hoje, principalmente, quando os governantes do FMI/PT baseiam sua política no assistencialismo das tais comunidade solidária, bolsa-escola, cartão alimentação (cópia do food stamp distribuído pelos ianques na década de 40), bolsa família, fome zero, restaurantes a R$ 1,00, nada mais estabelecem que um grande engodo eleitoreiro para mantê-los no poder, sem nenhuma melhora nas condições de vida do povo. Trata-se de uma política social de amansamento, de domesticação que agride a dignidade humana, porque é voltada para aprofundar a submissão, a ignorância e a idiotização.
Com essas esmolas as autoridades acreditam que essa imensa massa humana não cobrará delas nada mais que uma cesta básica. Situação idêntica inspirou o poeta Zé Dantas e a Luiz Gonzaga, o rei do baião que cantou em Vozes da seca: “Uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.”

No prefácio de sua obra mais famosa, ele diz:
A lama dos mangues do Recife é povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejos. Seres anfíbios — habitantes da terra e da água —, meio homens e meio bichos, alimentados desde a infância com caldo de caranguejo, este leite de lama. Seres humanos que se faziam assim irmãos de leite dos caranguejos. Que aprendiam a engatinhar e a andar com os caranguejos da lama e que depois de terem bebido na infância este leite de lama, de se terem enlambuzado com o caldo grosso da lama dos mangues, de se terem
impregnado do seu cheiro de terra podre e de maresia, nunca mais se podiam libertar desta crosta de lama que os tornava tão parecidos com os caranguejos, seus irmãos, com as suas duras carapaças também enlambuzadas de lama.

Cedo me dei conta deste estranho mimetismo: os homens se assemelhando, em tudo, aos caranguejos, arrastando-se, agachando-se como os caranguejos para poderem sobreviver. Parados como os caranguejos na beira d’água ou caminhando para trás como caminham os caranguejos. É, por isso, que os habitantes dos mangues, depois de terem um dia saltado para dentro da vida, nesta lama pegajosa dos mangues, dificilmente conseguiram sair do ciclo do
caranguejo, a não ser saltando para a morte e, assim, se afundando para sempre dentro da lama.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Terra é incapaz de acompanhar ritmo atual de consumo de carnes e pescado



No topo absoluto da cadeia alimentar, os seres humanos se dão ao luxo de comer de tudo, mas a um preço elevado: a pesca massiva está levando as espécies marinhas à extinção, e a piscicultura polui a água, o solo e a atmosfera - o que precisa fazer com que mudemos de hábitos.

Alimentar a humanidade - nove bilhões de indivíduos até 2050, segundo as previsões da ONU - exigirá uma adaptação de nosso comportamento, sobretudo nos países mais ricos, que precisarão ajudar os países em desenvolvimento.

Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), publicado nesta quinta-feira, a produção mundial de carne deverá dobrar para atender à demanda mundial, chegando a 463 milhões de toneladas por ano.

Um chinês que consumia 13,7 kg de carne em 1980, por exemplo, hoje come em média 59,5 kg por ano. Nos países desenvolvidos, o consumo chega a 80 kg per capita.

"O problema é como impedir que isso aconteça. Quando a renda aumenta, o consumo de produtos lácteos e bovinos segue o mesmo caminho: não há exemplo em contrário no mundo", destacou Hervé Guyomard, diretor científico em Agricultura do Instituto Nacional de Pesquisa Agrônoma da França (INRA), responsável pelo relatório Agrimonde sobre "os sistemas agrícolas e alimentares mundiais no horizonte de 2050".

Atualmente, a agricultura produz 4.600 quilocalorias por dia e por habitante, o suficiente para alimentar seis bilhões de indivíduos.

Deste total, no entanto, 800 se perdem no campo (pragas, insetos, armazenamento), 1.500 são dedicadas à alimentação dos animais - que só restituem em média 500 calorias na mesa - e 800 são desperdiçadas nos países desenvolvidos.

Por outro lado, o gado custa caro ao meio ambiente: 8% do consumo de água, 18% das emissões de gases causadores do efeito estufa (mais que os transportes) e 37% do metano emitido pelas atividades humanas.

E, mesmo que seja fonte essencial de proteínas, a carne bovina não é "rentável" do ponto de vista alimentar: "são necessárias três calorias vegetais para produzir uma caloria de carne de ave, sete para uma caloria de porco e nove para uma caloria bovina", explicou Guyomard.

Desta maneira, mais de um terço (37%) da produção mundial de cereais serve para alimentar o gado - 56% nos países ricos - segundo o World Ressources Institute.

Seria o caso, então, de reduzir o consumo de carne e substitui-lo pelo peixe?

Os oceanos não podem ser considerados uma despensa inesgotável, estimou Philippe Cury, diretor de pesquisas do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD).

O número de pescadores é duas a três vezes superior à capacidade de reconstituição das espécies.

No atual ritmo, a totalidade das espécies comerciais haverá desaparecido em 2050.

Fonte: Uol Meio Ambiente

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Desequilíbrio Humano



Para o deprimido, decepcionado com a sociedade, dizia o Analista de Bagé: “Não te preocupa que eu dou uns telefonemas aí e mudo o mundo“. E quando o paciente reagia, “mas doutor, isso não é possível“, vinha a interpretação terapêutica: “Ainda bem que tu te dá conta, bagual !“. Os jovens americanos, mais otimistas, passaram uns emails e ajudaram a mudar o mundo mesmo, pois segundo os analistas políticos a internet foi decisiva na campanha de Obama. Sim, é verdade que ele teve apoio inclusive de grandes grupos econômicos na eleição, mas o apoio empresarial foi crescendo na proporção da sua popularidade pessoal – pois nem seria bom para a imagem dessas empresas, investir num cara impopular.

Agora que entrou na moda, finalmente, pensarmos no ambiente como resultado das ações humanas, podemos aproveitar esse entendimento para avaliar também a sociedade e várias formas de desequilíbrios humanos. Se estamos decepcionados com nossas instituições, o que podemos fazer pela “despoluição” dos sistemas de representação e delegação de poderes, para chegarmos a um “desenvolvimento sustentável” dos próprios seres humanos ?

Um outro modismo, mais questionável, é o de livros sobre “mentes perigosas”, como se os “psicopatas violentos” fossem fruto apenas de uma doença psíquica que não tem nada a ver conosco, ou com seus contextos de vida. Há mais de um século Freud já explicou o conceito de “introjeção”, pelo qual podemos compreender como relações humanas deturpadas podem ficar marcadas no nosso inconsciente de modo a formar personalidades perturbadas. Sim, existem psicopatas violentos e eles são perigosos, temos de aprender a identificar sinais de risco para nos protegermos. Mas quem sabe está na hora de nos preocuparmos em evitar que se formem novas gerações de seres humanos em condições de vida sub-humanas, introjetando as violências que sofrem no cotidiano das regiões dominadas pelo tráfico, por exemplo.

Se o desequilíbrio ambiental tem sido capaz de mobilizar os jovens para uma nova atitude diante da vida, ele pode ser um “catalisador” também de uma mudança mais ampla, na qual o desequilíbrio do ambiente humano seja incluído em nossa forma de perceber a vida e a sociedade. Porque a mente (psique) e o cérebro (orgânico) humanos, tanto quanto quaisquer sistemas ecológicos, também reagem a tudo o que ocorre à sua volta. Pelo menos é assim que entendem todas as pessoas e entidades (desde as várias abordagens psicoterapêuticas, até as de cunho espiritual) que tem obtido algum resultado na recuperação destas pessoas, que tem sido tratadas como “lixo” pela sociedade – mas mesmo que o fossem, porque suas vidas não poderiam ser “recicladas” ? Sabendo o quanto custa essa reciclagem, é mais racional investir em prevenção (com planejamento familiar, políticas sociais mais eficazes e planejamento urbano) dessa violência que já se volta contra nós, tanto quanto o desequilíbrio do clima.

Montserrat Martins, Psiquiatra.